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Análise semiótica da história de uma grande mulher na informática

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A história de Lynn

Introdução

Trata-se da história de como uma mulher trouxe inúmeros e importantes progressos para a sociedade ao assumir uma nova identidade e começar uma vida nova em segredo, mesmo sofrendo uma intensa rejeição e de ser estigmatizada socialmente pelo simples fato de querer ser ela mesma.

Esquema Narrativo

No percurso do destinador-manipulador, a IBM manipula Lynn propondo-lhe que tenha sucesso profissional caso aceite os valores da empresa que se resumem em “ser homem e competente”. A IBM intimida Lynn, pois se não corresponder a esses valores, será excluída da empresa.

Esquema I

Percurso do destinador-manipulador : contrato entre a IBM segundo o qual Lynn deve aceitar os valores da IBM ser homem e competente para manter-se no emprego.

Percurso do sujeito: Lynn aceita esses valores e cumpre assim o contrato.

Percurso do destinador-julgador : a sansão é positiva, pois Lynn é uma pessoa de destaque na empresa.

A vontade de Lynn de ser ela mesma, mudar de sexo, conduziria a um julgamento negativo e à punição por parte da IBM. Mesmo assim, Lynn persegue seu valor e dá início a um novo esquema narrativo.

Esquema II

Percurso do destinador-manipulador: após ser demitida, Lynn manipula a sociedade, mais especificamente as empresas de informática, através do sigilo sobre sua transexualidade, ao assumir uma nova identidade.

Percurso do sujeito: o sujeito “sociedade”, sem saber da história completa, aceita a mesma Lynn por sua competência.

Percurso do destinador-julgador: o sujeito “sociedade” faz uma sansão positiva, dando-lhe novo emprego e reconhecendo seu trabalho, pois Lynn é uma excelente profissional, o que compensa o fato de não ser homem.

O texto mostra o recurso utilizado por Lynn para se reintegrar à sociedade. Ela, por ser “uma mulher talentosa”, consegue até assumir sua transexualidade tempos depois, em virtude de seus atributos profissionais, suficientes para mais do que compensar a sua não correspondência com o valor social “ser homem”.

Machismo e o enunciador

O texto “A História de Lynn, uma mulher de talento” traz à tona a questão do machismo. Cabe agora fazer uma coletânea de palavras e/ou expressões que remetem a esse tema, além de comentar como o enunciatário cria uma imagem não machista de si mesmo.

É interessante destacar, inicialmente, o próprio título, pois não se ressalta a questão transexual mas, antes, o fato de que Lynn Conway é uma mulher talentosa; além disso, no subtítulo, há o reforço dessa idéia.

Observe seguinte trecho:

A realidade é que Lynn nasceu menino e foi criado como tal. Isto foi um erro terrível e trágico porque ela tinha o sexo psíquico e a identidade de gênero femininos.

Em várias partes do texto, há o enfoque para a questão das mulheres transexuais, e de como elas sofreram o preconceito, a exemplo de Lynn, a ponto de serem tratadas como “coitadas”:

Lynn conhecia histórias de outras mulheres transexuais que tinham sido objeto de ostracismo, abuso, assédio, violência, estupro e até assassinato e que se suicidaram ao serem descobertas e perseguidas por indivíduos brutais e cheios de ódio.

Cumpre destacar a questão do preconceito existente na visão binária do sexo, pois a IBM demitiu Lynn, “num misto de ódio e hostilidade” pelo “lendário chefão” Thomas J. Watson Jr, quando o que parecia um homem mostrou-se um ser híbrido, um transexual.

Assim, após a breve análise feita no texto “A História de Lynn, uma mulher de talento”, fica evidenciada a questão do machismo e de como a mulher transexual era tratada sob apenas um ponto de vista. Nesse sentido, é interessante visualizar o “outro lado da moeda”, como a própria Lynn destaca:

O que poucas vezes se transmite é uma sensação de alívio que experimenta a transexual ao se livrar do corpo masculino, e a felicidade que encontra logo após, como mulher. A gente nunca se dá conta que vivem na sociedade dezenas de milhares de mulheres pós-operadas bem sucedidas na vida e que são plenamente aceitas como mulheres.

O ser e o parecer da história da Lynn

Na contemporaneidade, há uma valorização do corpo e do seu modo de apresentar-se na busca de uma identidade social. A importância que se dá ao fato de que os corpos expostos sejam muito “belos” é uma forma de “mascarar” através da estética a natureza crua do que está em seu interior. Isso provoca discussões sobre a crise da representação, pois muitas vezes o corpo se confunde com a essência da pessoa. O fato de que somente pela mediação da matéria, do significante e do seu corpo que o sujeito constrói sua relação com o mundo enquanto universo de valores e sentido faz com que a ele seja atribuído um significado especial pelo fato de ser do sexo feminino ou masculino, gordo ou magro, branco ou negro.

Por exemplo, segundo José Luiz Fiorin, é muito comum que, na iconografia do realismo socialista, os corpos dos capitalistas sejam gordos, enquanto os dos comunistas sejam esbeltos. Trata-se de opor os “porcos” capitalistas, que enriquecem com o trabalho alheio, aos homens que governam sua vida por um ideal revolucionário. Ou seja, a percepção que o homem possui de seu próprio corpo e do corpo dos que o rodeiam é a de que ele representa as sensações, percepções e caráter de seu espírito.

Nessa “classificação” que se atribui ao corpo, percebe-se uma dualidade na representação do corpo da mulher e do homem no que converge para a representação do poder nas instituições de trabalho. Muitas vezes a competência da pessoa é confundida com essa representação do corpo masculino x feminino causando uma estranha familiaridade entre esse corpo e a sua essência. Dessa forma, o enunciatário, que através da imagem do corpo do enunciador tira conclusões sobre o seu conteúdo interno, está fazendo uma análise baseada na aparência, que é insuficiente, pois facilmente manipulável, para determinar a essencia do sujeito, o seu valor e sua competência.

O texto de Lynn expressa que as categorias dos níveis mais profundos entre a enunciação e o enunciador determinam os sentidos mais superficiais. Lynn só consegue reverter a sua história quando vence o preconceito de si mesma e se assume como realmente é. Antes deste fato, ela pertencia ao mesmo quadro de valores dos discriminadores da empresa em que trabalhava, ou seja, o quadro de valores em que o diferente é negativo e o igual, positivo. Ela rompe esse contrato quando se aceita. Passa, então, a fazer parte do quadro de valores em que o diferente é positivo. Apesar de ela ter mudado de corpo, sua essência permaneceu a mesma, evidenciando que o que importa não é a “casca” e sim o conteúdo.

Trajetória percorrida por Lynn (estados e objetos de desejo)

Dentro da situação enunciativa encontra-se Lynn, um sujeito inicialmente em disjunção com o seu próprio ser.

Num primeiro momento, Lynn não está em conjunção consigo mesma, ou seja, seu corpo não traduz o seu gênero de fato. Pode-se dizer que os pensamentos, a personalidade e as atitudes de Lynn estão em estado disjuntivo com o seu corpo.

A partir daí, a engenheira resolve entrar em conjunção com seu tipo físico, por meio de uma transformação, no caso uma operação de correção de sexo. No entanto, durante este processo, Lynn entra em disjunção com a IBM, empresa onde trabalhava.

Percebe-se que o quadro de valores da IBM remonta aos aspectos negativos da transformação de Lynn, enquanto o enunciador ressalta os aspectos positivos da correção de gênero efetuada por ela. Neste ponto, observa-se uma contraposição de valores: IBM (machista) x enunciador (não-machista). Não existem marcas formais que apontem para a ausência de preconceito do enunciador, mas todo o seu texto constrói a imagem da mudança de sexo como um processo natural onde há a adaptação de um corpo masculino a uma mente feminina.

Nota-se que existem duas mudanças de estado principais percurso de Lynn. São eles: o processo de mudança de sexo (disjunção => conjunção) e o percurso de reconhecimento profissional (conjunção => disjunção => conjunção).

No ínicio, quando Lynn ainda estava protegida por uma aparência masculina, ela se encontrava em conjunção com o seu trabalho, mas em disjunção com a sua essência feminina. A partir do momento em que ela começou sua transformação física, ela entrou em conjunção com seu corpo, mas em disjunção com seu emprego. Ao final do texto, Lynn alcança o estado de conjunção com seus dois objetos de desejo: sucesso no seu trabalho e seu corpo feminino.

Enfim, o texto traça a trajetória de Lynn, durante o seu percurso profissional e humano, destacando que sua competência nada tinha a ver com a aparência física, uma vez que Lynn, aparentando-se homem ou mulher, demonstrou sempre a mesma habilidade e eficiência no exercer da sua profissão. O texto conduz, portanto à conclusão de que a questão do sucesso profissional, apesar do olhar preconceituoso da sociedade, nada tem a ver de fato com o gênero da pessoa, mas sim com a sua capacidade cognitiva enquanto ser humano.

Autoria e referências

Autores: Camila Barros de Abreu, Caroline Konzen Castro, Hadinei Ribeiro Batista, Oswald Stuart Nascimento Rabelo, Tania Maria de Oliveira Gomes.

Revisão: Ana Matte, Fabiane Angelica de Aguiar.

Texto Objeto: A História de Lynn, uma mulher de talento. In: Projeto Software Livre Mulheres: http://mulheres.softwarelivre.org/news/3080

Referência: Sobre a estrutura narrativa.

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Written by otextolivre

14 novembro 2008 às 6:54 pm

Uma resposta

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  1. As pessoas não devem ser valorizadas pelo que aparentam ser, mas pelo que realmente são. No mundo contemporâneo há uma mentalidade do protótipo ideal, mas este diz respeito somente ao físico: existe o molde de homem e de mulher ideal e quem não atende aos requisitos é considerado o inútil ou o excluído.
    Quanto ao espírito, parece que isso já não importa para a sociedade, se apresenta como algo tão banal que as pessoas não dão atenção e isso faz com qualidades não sejam percebidas e assim as relações interpessoais tornam-se cada vez mais frias, mais distantes, mais apáticas. É essa falta de sensibilidade e esse pensamento pré-fixado sobre conceitos que fazem com as pessoas tornem-se introspectivas. Isso explica o fato de Lynn ter escondido tanto tempo a sua história. Ela percebeu o preconceito da sociedade tradicionalmente machista e tentou superar esse desafio mostrando que o seu interior era rico e que representava muito mais que sua aparência física. Não é só por ser transexual que Lynn sofreu. A realidade é que o preconceito existe contra as mulheres. Há muitas pessoas com o pensamento da antiga sociedade patriarcal machista por aí: mulher não pode desenvolver seu intelecto e conquistar o mercado de trabalho. Mas esse pensamento está “caindo por terra” porque cada vez mais as mulheres avançam no mercado e grandes cargos de direção em grandes empresas já são ocupados por elas e Lynn está aí para mostrar essa realidade e para ser um exemplo de superação e conquista para todos, independente de ser homem ou mulher.

    Josiane

    20 novembro 2008 at 1:30 am


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