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Letramento e Educação a Distância

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Por: Adriana M. Diniz Andrade, Marina Gontijo S. Teixeira e Raquel Mesquita.

Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no começo de seu percurso profissional serão obsoletas no fim de sua carreira.
Pierre Lévy

Resumo: Este artigo pretende apresentar, ainda que de forma sucinta, o que se entende por letramento digital bem como as implicações pedagógicas de sua entrada na escola, como a aprendizagem dos novos gêneros textuais que surgem. Ainda, é possível encontrar neste, a idéia de que a escola precisa estar aberta ao ensino desses novos gêneros, pois é papel dela democratizar as práticas sociais presentes na vida, e que o não cumprimento dessa idéia pode fazer da escola espaço de exclusão social.
Ser somente alfabetizado nos dias atuais não é mais suficiente. Já não são apenas os livros, jornais, folhetins, revistas, etc, que deverão ser decifrados ou devorados pelos leitores. Muita coisa deixou de ser analógica para se tornar digital. Surgiram novos suportes: as máquinas e suas telas. Caixas eletrônicos, computadores, celulares, palm tops, DVDs e CDs estão por todos os lados e passaram a exigir do cidadão, habilidades específicas para manuseá-los e controlá-los; habilidades essas que poderiam e deveriam ser ensinada pela escola.

A escola sempre teve como objetivo maior ensinar a ler e a escrever. Alfabetizar crianças era sua primeira função, ou seja, oferecer o acesso ao mundo da leitura e escrita através da aprendizagem dessas técnicas. Sendo assim, o indivíduo adquiriria um conjunto de procedimentos e habilidades fundamentais para a prática da leitura e da escrita: a decodificação de palavras, frases e textos e apenas isso.

Assim como a alfabetização, o letramento também possui características próprias, que, segundo Soares, são (2003) estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva as práticas sociais que usam a escrita. E ainda: capacidade do indivíduo de lidar com textos de variados gêneros (bilhete, carta, ata, notícia, poesia, etc) em diferentes situações e para fins diversificados.

O ser humano é um indivíduo, sobretudo, sócio-histórico, portanto, sua prática social (oral, de escrita, de leitura, etc) muda de acordo com o momento histórico em que o mesmo se encontra. Isso quer dizer que tempos diferentes determinam práticas sociais diferentes. Roger Chartier (1999) dissertando sobre costumes e maneiras de ler faz o seguinte comentário a respeito do silêncio obrigatório instaurado nas bibliotecas universitárias na Idade Média:

Encontramos nas bibliotecas a idéia de um comportamento que deve ser regulado e controlado. Observe, mais tarde, no século XVIII, as sociedades de leitura, que tiveram muita importância na Alemanha das Luzes. Menos desenvolvidas na França, eram numerosas na Inglaterra, sob a forma dos book clubs. Nos regulamentos, está previsto que o lugar da leitura deve ser separado dos lugares de divertimento mais mundano (…) . A história das práticas de leitura, a partir do século XVIII, é também uma história da liberdade na leitura. É no século XVIII que as imagens representam o leitor na natureza, o leitor que lê andando, que lê na cama (…) . O leitor e a leitora do século XVIII permitem-se comportamentos mais variados e mais livres (…) . (CHARTIER,1999, p.78)

Atualmente, novas práticas sociais de leitura e de escrita surgem, pois se vive imerso a uma cultura contemporânea digital (Pierre Levy). Novas ferramentas se apresentam à sociedade, sobretudo às crianças que estão nascendo ou que nasceram nos últimos dez anos. Fato, que exige renovação, revolução e atualização da escola. Conclui-se que mesmo um sujeito alfabetizado e letrado pode ser um “iletrado digital”, caso não possua as habilidades necessárias para controlar essas novas ferramentas. Mas, o que seria, então, esse letramento digital? Segundo Xavier (2004)

(…)letramento digital implica realizar práticas de leitura e escrita diferentes das formas tradicionais de letramento e alfabetização. Ser letrado digital pressupõe assumir mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não-verbais, como imagens e desenhos, se compararmos às formas de leitura e escrita feitas no livro, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital.

Sendo assim, novas habilidades deverão ser ensinadas pela escola. Habilidades para se ler e escrever um e-mail, para participar de um chat, para se fazer pesquisas na internet, como manusear o mouse, para entender o funcionamento do teclado, como gravar uma tarefa concluída, etc. A respeito dessas novas habilidades e competências para usar a escrita, Magda Soares (2002b, p. 156) salienta que “diferentes tecnologias de escrita geram diferentes estados ou condições naqueles que fazem uso dessa tecnologia em suas práticas de leitura (…)”.

Outras possibilidades, vinculadas a essa era digital, surgem para acompanhar o desenvolvimento tecnológico. É o caso, por exemplo, da modalidade de Educação à Distância. Muitas são as razões para se buscar o ensino à distância: falta de tempo, distância, finanças, oportunidade de fazer cursos, e a possibilidade de entrar em contato com outros estudantes de diferentes classes sociais, culturais, econômicas e experimentais. Como conseqüência adquire-se não só conhecimento, mas também novas habilidades sociais, incluindo a habilidade de comunicar e colaborar com colegas largamente dispersos, quem eles podem nunca ter visto.

A Educação à Distância é caracterizada pela separação do professor e aluno no espaço e/ou tempo (Perraton,1988); controle do aprendizado realizado mais intensamente pelo aluno do que pelo instrutor distante e comunicação entre alunos e professores é mediada por documentos impressos ou alguma forma de tecnologia.

Com o surgimento das novas tecnologias, apresentam-se novos gêneros textuais que deverão fazer parte desse letramento digital. Gêneros textuais são, segundo Marcuschi,

fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social.” (…) são “eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos. Surgem emparelhados a necessidades e atividades sócio-culturais, bem como na relação com inovações tecnológicas (…) MARCUSCHI (2002:19)

ou seja, novas práticas, novos gêneros, novas aprendizagens. Alguns dos gêneros textuais que surgem com as novas tecnologias são: e-mail, blog, chat, msn, torpedos via telefone celular, e outros. Cada um desses gêneros têm características razoavelmente estáveis, que podem ser aprendidas na escola, mas não só por isso, principalmente porque são gêneros usados com freqüência, o que de fato, acarretaria em uma exclusão o não conhecimentos dos mesmos.

Mas, será que as escolas estão preparadas para essa “revolução?” Será que as crianças estão “escrevendo” e-mails? Participando de chats? Ou, ainda, fazendo parte de um ambiente virtual de aprendizagem?

Sabe-se que existem hoje milhares de pessoas no Brasil que não tem acesso a nenhum tipo de tecnologia. Quando então se pensa em internet e computador os números de excluídos são ainda maior. A escola é um dos meios de acesso para essa população, mas o despreparo dessa instituição provoca o fenômeno da exclusão digital.

Os perigos dessa exclusão digital passam desde o surgimento de uma barreira no crescimento cultural dos cidadãos até a possibilidade da perda de emprego.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, J. C. (Org.) . Internet e Ensino: novos gêneros, outros desafios. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.
ARAÚJO, Júlio César, Biasi-Rodrigues, Bernadete (Orgs.). Interação na Internet: Novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.
CAFIERO, D. ; COSCARELLI, C. V. Análise do discurso e a sala de aula: compreensão de textos. In: Simpósio Internacional sobre análise do discursos, 2002, BH. Anais do II simpósio Internacional sobre análise do discurso, 2002.
COSCARELLI, C. V. (Org.) Novas tecnologias, novos textos, novas formas de pensar. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
COSCARELLI, C. V., Ribeiro, Ana Elisa (Orgs). Letramento Digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
MARCUSCHI, L. A.; Xavier, A. C. (Orgs.) . Hipertexto e Gêneros Digitais: Novas Formas de Construção de Sentido. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004.
________. Gêneros textuais definição e funcionalidade In: DIONÍSIO, A. P., MACHADO, A. R. , BEZERRA, M. A. (Orgs.) Gêneros Textuais e ensino. Rio de Janeiro, 2002: Editora Lucerna.
Perraton, H. (1988). A theory for distance education in D. Stewart, D. Keegan & B. Holmberg – Distance education: international perspectives – New York: Routledge.

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Written by otextolivre

23 julho 2008 às 6:28 pm

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