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Ferramentas tecnológicas ou ferramentas teóricas?

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Estava preparando a próxima aula da turma de redação, que será expositiva no webchat e comecei a pensar nessa loucura que é fazer uma aula de redação usando tantas e diversas ferramentas tecnológicas. Alunos de humanas, em geral, sofrem muito com isso, pois lhes foi ensinado que só precisamos de bibliotecas – de papel, diga-se de passagem. Por isso somente os mais curiosos, e geralmente por hobby, acabam conhecendo um pouco desse bichinho maluco que é o computador.

Pensei em deixar essa aula teórica para depois e passar mais tempo ajudando com as dificuldades técnicas. Mas concluí que isso acarretaria em dois problemas graves: 1) o curso atrasaria – e isso prejudica a todos -; e 2) os estudantes continuariam sem entender o que é que essas ferramentas todas têm a ver com aulas de oficina de texto, seja qual for a abordagem.

O ferramental teórico é tão importante quanto o ferramental tecnológico. Para entrar na faculdade foi preciso aprender a ler e a escrever, o que consiste num ferramental tecnológico, mas também lhes foi exigido conhecimento teórico sobre literatura e gramática, por exemplo. No entanto, depois que entramos na faculdade, pelo menos na maioria das escolas de letras passamos a aprender teoria e mais teoria sem que nos seja dada, na grande maioria dos casos, nenhuma nova ferramenta para a realização do nosso trabalho. Vejo pessoas na letras apertando parafusos com faca de cozinha. E depois nao sabem porque foi que o parafuso espanou.

Eu idealizo um tempo em que chegarei numa aula de oficina de texto e digo: “cadastrem-se no site e vamos comecar a aula no webchat.” E pronto: começamos a discutir teoria. Mas esse tempo não chegou. E não é culpa de ninguém em específico. Mas se eu tenho consciência da importância disso, sou responsável por tentar mudar a situação.

A aula teórica é muito importante, pois precisamos dos conceitos sobre linguagem e construção de texto que vão permerar todas as nossas atividades. Com essas aulas teóricas os estudantes ganham subsídio para suas atividades de escrita, treinando no Texto Livre e produzindo material acadêmico de retorno dessas atividades para mim. Ou seja: os estudantes trabalham com o suporte lingüístico à documentação em software livre e me deixam a par de suas atividades por meio de relatórios, resumos, etc. E em todas as duas etapas são estimulados a aplicar, de forma crítica, tudo aquilo que for ensinado nas aulas teóricas.

No momento em que escrevo este texto, terceira semana de aulas das turmas do primeiro semestre de 2007, alguns já superaram as dificuldades técnicas, outros não. A todos gostaria de contar um segredo: a gente faz faculdade pra arrumar emprego e um lugar no mundo. Conheço bastante desse mundo (embora ainda não seja centenária e tenha muito a conhecer), não só de Minas mas de boa parte do Brasil e, até mesmo, do exterior. E aprendi nas minhas andanças que um profissional, para ser bom, precisa saber usar as ferramentas corretas. Em qualquer area. Na letras não é diferente.

O estudante de humanas precisa saber ler, saber escrever, saber pesquisar e usar o novo ferramental tecnológico de maneira crítica. Foi por isso que eu fui aprender a fazer site pra montar as aulas: computador em sala de aula é uma realidade nas melhores escolas – e por favor, independente de ideologia, entendam aqui “melhores escolas” como as que pagam melhor -.

Estive semana passada para uma banca na USP e depois da defesa fui conversar com meus amigos professores da letras. Eles ficaram espantados como a UFMG é moderna, com esses novos métodos. E me pediram para dar uma palestra na USP contando comofazemos isso. Isso é pra vocês verem como os estudantes do Texto Livre são pioneiros: eles fazem parte de um projeto que pode mudar muitas histórias, inclusive a história do ensino de letras.

Um amigo muito querido, Luis Antonio Marchuschi, que voces podem não acreditar, mas conheci no msn, já sabia disso há muito tempo: a diferença entre fala e escrita é de natureza tecnológica. Estudar a linguagem, portanto, passa necessariamente pelo estudo das tecnologias de comunicação.
É por isso que eu guardo muita paciência para explicar de novo e de novo e mais uma vez cada uma das ferramentas que usamos. Mas não vou deixar de trabalhar com a teoria. É como o portal de Marco Polo: o que faz o arco não é cada uma das pedras, mas o aranjo de todas elas juntas.

Publicado originalmente na página do curso de Oficina de Texto, em 21 de Março de 2007.

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Written by anacrisfm

7 março 2008 às 7:27 pm

Publicado em texto livre

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